Você está aqui:
Ilustração estilo retro dos cinco heróis de Goggle-V em poses de ação, com o Goggle Robo e explosões ao fundo

Ao olharmos para o vasto panorama do Tokusatsu contemporâneo, com suas transformações digitais complexas, narrativas serializadas e merchandising agressivo, é fácil relegar as obras das décadas passadas ao patamar da mera nostalgia datada. No entanto, como estudioso da antropologia visual japonesa, percebo que ignorar obras como Dai Sentai Goggle-V (1982) é perder a oportunidade de compreender a própria ossatura do gênero Super Sentai. Minha análise não busca revisitar a infância de muitos, mas sim dissecar este título como um artefato cultural e técnico fundamental, que solidificou gramáticas visuais e narrativas utilizadas até hoje pela Toei Company.

Goggle-V não é a série mais artisticamente ambiciosa da franquia, nem a mais sombria, mas é, inegavelmente, a obra que estabeleceu o “padrão ouro” industrial do que viria a ser o Super Sentai moderno. Após as experimentações conceituais de Battle Fever J e a estrutura mais militarista de Sun Vulcan, Goggle-V surge como uma síntese pragmática, focada na eficiência da ação e na clareza da dualidade temática. Para entender o impacto desta obra, precisamos olhar além do látex e das explosões de napalm, mergulhando na estética da época e na mentalidade coletiva do Japão do início dos anos 80.

A Estética do Ritmo: A Ginástica como Gramática de Ação

O elemento mais distintivo e, paradoxalmente, mais subestimado de Goggle-V é a incorporação da ginástica rítmica como base para a coreografia de combate. À primeira vista, pode parecer uma escolha pueril ou meramente exótica, mas há uma sofisticação técnica e antropológica profunda nessa decisão da Toei e do renomado Japan Action Club (JAC).

Na virada dos anos 70 para os 80, o Japão vivia uma febre esportiva, refletindo uma sociedade focada na disciplina física e na eficiência do movimento. Ao atribuir a cada membro da equipe uma ferramenta da ginástica (corda, arco, bola, clavas, fita), a série criou uma linguagem cinética única. O combate deixou de ser apenas uma troca de socos e chutes (comum no Kamen Rider da época) para se tornar uma performance coordenada.

Do ponto de vista da animação e da direção de arte, isso permitiu composições de cena esteticamente superiores. O uso da fita da Goggle Pink, por exemplo, não era apenas um ataque; era um elemento visual que guiava o olho do espectador através da tela, criando rastros de cor que acentuavam o movimento dinâmico da película. Há um rigor na execução dessas coreografias que denota o auge da técnica de suit acting da época. Os dublês não estavam apenas lutando; eles estavam executando rotinas atléticas complexas dentro de trajes que limitavam a visão e a respiração.

Essa fusão de esporte e combate reflete a valorização japonesa do kata (a forma, o padrão). Em Goggle-V, a vitória não vem apenas da força bruta, mas da execução perfeita de uma forma física pré-definida e coreografada em equipe. É a celebração do esforço coordenado sobre o heroísmo individualista.

Ciência Sombria vs. Futuro Luminoso: O Contexto Sociocultural

A premissa narrativa de Goggle-V centra-se no combate entre o Laboratório de Ciência do Futuro e o Império da Ciência das Trevas Deathdark. Embora simplista na superfície, essa dicotomia ressoa profundamente com as ansiedades e aspirações do Japão pós-guerra.

O Japão dos anos 80 estava no auge de seu “milagre econômico”, impulsionado por avanços tecnológicos massivos. No entanto, a memória da tecnologia usada para destruição (a Segunda Guerra Mundial e o trauma atômico) ainda era latente na psique coletiva. Deathdark representa a ciência desumanizada, o progresso tecnológico desprovido de ética, que busca a conquista pelo poder. O líder de Deathdark, Taboo, é uma criatura sintética, um cérebro gigante em um tubo, a personificação da intelectualidade fria e sem corpo.

Em contrapartida, os heróis utilizam a “Ciência do Futuro”. Mas o que define essa ciência? Curiosamente, a base de poder do Goggle Robo provém de um mineral misterioso escondido em uma civilização antiga da América do Sul. Há aqui uma nuance antropológica fascinante: a série sugere que o futuro tecnológico do Japão não deve depender apenas da razão ocidental moderna, mas deve se reconectar com sabedorias ancestrais e ocultas. A verdadeira ciência, na visão de Goggle-V, é aquela que harmoniza o progresso técnico com o espírito humano e a história.

O Goggle Robo em si é um monumento a essa mentalidade industrial. O design modular (Goggle Jet, Goggle Tank, Goggle Dump) e a sequência de combinação longa e detalhada são celebrações da engenharia e da manufatura japonesa (o monozukuri). Cada transformação é um mini-documentário ficcional sobre a eficiência da montagem industrial, algo que ressoava com uma nação orgulhosa de suas marcas de eletrônicos e automóveis.

A Estruturação do Clichê: O Sentai como Ritual Repetitivo

Como crítico de mídia, é imperativo analisar a estrutura de Goggle-V. É nesta série que a Toei cimenta a fórmula que dominaria o gênero pelas décadas seguintes. O esquema: monstro ataca -> Sentai luta contra soldados rasos (os Madaramen) -> Sentai luta contra o monstro no chão -> Sentai usa a arma final -> monstro é ressuscitado/gigante -> Sentai chama o robô -> batalha de mechas -> golpe final do robô.

Para o espectador ocidental não acostumado, essa previsibilidade pode parecer preguiça narrativa. Contudo, na ótica da cultura japonesa, essa estrutura repetitiva opera de forma similar a um ritual ou a uma peça de teatro Kabuki. O público não assiste para ser surpreendido pelo “o quê” vai acontecer, mas sim para apreciar o “como” vai acontecer. A sofisticação reside nas variações sutis: qual será o plano absurdo do monstro da semana? Como a Goggle Pink usará seu espelho em uma situação inusitada? Como será a coreografia da luta de espadas do robô?

Goggle-V elevou a qualidade técnica desse ritual. A direção de efeitos especiais (tokusatsu propriamente dito) de Nobuo Yajima atingiu um nível de maturidade impressionante. O uso de miniaturas, pirotecnia em estúdio e composições óticas para os raios e explosões criou um espetáculo visual palpável que o CGI moderno, muitas vezes, falha em replicar. Há um peso e uma textura naquelas maquetes de prédios sendo destruídas que conferem gravidade à ação, um testemunho do artesanato visual dos estúdios japoneses da época.

A Evolução do Conceito de Equipe: O Coletivismo em Ação

Antropologicamente, o Super Sentai é a manifestação máxima do coletivismo japonês (shudan shugi), em contraste com o super-herói individualista ocidental. Goggle-V leva esse conceito a um nível de abstração interessante. Diferente de séries posteriores que focariam nos dramas pessoais e conflitos internos dos heróis, os membros do Goggle-V são quase intercambiáveis em termos de personalidade (com exceção sutil do líder, Goggle Red). Eles existem primariamente como funções dentro do grupo.

Essa despersonalização reforça a mensagem de que o indivíduo é secundário à missão e à harmonia do grupo (wa). O poder da equipe não reside em suas individualidades, mas em sua capacidade de operar como um único organismo. Isso fica evidente nos ataques combinados, onde eles literalmente se tornam uma bola de energia ou uma formação geométrica. Em Goggle-V, a identidade do herói é definida não pelo seu “eu”, mas pela sua cor e pelo seu papel na coreografia tática. É uma representação pura e idealizada da sociedade corporativa japonesa (os “salarymen” da justiça), onde a lealdade à organização e o trabalho em equipe são as virtudes supremas.

Reflexões Finais: O Legado Silencioso

Ao revisitar Dai Sentai Goggle-V, não encontro apenas uma série de aventura infantil com efeitos datados. Encontro uma obra que capturou o zeitgeist de um Japão em transição tecnológica, ansioso por definir sua identidade moderna sem perder suas raízes (sejam elas as civilizações antigas da premissa ou a valorização do kata esportivo).

Sua importância não reside na inovação narrativa (que viria anos depois com Flashman e Jetman), mas na consolidação e no refinamento técnico de uma fórmula. Goggle-V foi o laboratório onde a Toei aperfeiçoou a linha de montagem de seus heróis, garantindo que o gênero Super Sentai sobrevivesse e prosperasse através da repetição ritualística de alta qualidade. Para o leitor que busca entender as camadas por trás da cultura pop japonesa, Goggle-V oferece uma chave de leitura essencial: a compreensão de que, no Japão, a forma e o processo são, muitas vezes, tão significativos quanto o conteúdo.

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados *

Postar Comentário