Ao nos determos na vasta tapeçaria da cultura pop japonesa, muitas vezes somos seduzidos pelo brilho das produções mainstream, pelas narrativas heróicas ou pelas estéticas polidas que dominaram o mercado global. No entanto, para além desse horizonte visível, reside um território profundo, por vezes perturbador, que fundamenta a própria maturidade do meio. É nesse espaço de vanguarda e introspecção que brilha, com uma luz sombria e persistente, Nejishiki (ねじ式), a obra-prima de Yoshiharu Tsuge. Publicado originalmente em 1968 na lendária revista Garo, este mangá one-shot não é apenas uma leitura; é uma incursão na arquitetura do inconsciente, um marco que redefiniu as possibilidades narrativas e estéticas da nona arte no Japão. Minha percepção é que, para compreender a verdadeira densidade do mangá como expressão artística, é imperativo confrontar o legado claustrofóbico e existencial de Tsuge.
A Revolução Silenciosa do Gekiga e o Nascimento de Garo
Para situar Nejishiki, devemos retroceder ao Japão do pós-guerra, um período de profunda reconfiguração social e psicológica. O mangá, até então dominado pelo estilo “infantil” de Osamu Tezuka, começou a ver o surgimento do Gekiga (劇画), ou “imagens dramáticas”. Este movimento, liderado por figuras como Yoshihiro Tatsumi, buscava narrativas mais adultas, realistas e sombrias, abordando temas de alienação urbana, pobreza e angústia existencial. Foi nesse caldo de cultura que a revista Garo (ガロ), fundada por Katsuichi Nagai, emergiu como o bastião da vanguarda.
Garo não se curvava às demandas comerciais; era um laboratório para artistas que desejavam explorar a forma pura, o experimentalismo visual e a expressão pessoal sem filtros. Yoshiharu Tsuge, já um artista estabelecido, encontrou em Garo o espaço para destilar suas obsessões. Ao observar a trajetória de Tsuge, fica claro que ele não estava interessado em criar heróis, mas em dissecar a vulnerabilidade humana. Nejishiki é o ápice dessa jornada: uma obra que transpõe a lógica do sonho para a página, desafiando a estrutura narrativa linear e mergulhando o leitor em um pesadelo fragmentado e profundamente pessoal.
A Estética do Pesadelo: Traço, Simbolismo e Estrutura Narrativa
A primeira impressão ao confrontar Nejishiki é a de um desconforto visual palpável. O traço de Tsuge não busca a beleza ou a fluidez; ele é sujo, detalhado de forma obsessiva, quase claustrofóbico. A obra narra a jornada de um jovem (frequentemente interpretado como um alter-ego do autor, imbuído de elementos da tradição literária I-Novel ou Shishōsetsu) que, após ser picado por um peixe-veneno em uma praia desolada, vaga por uma paisagem labiríntica e surreal em busca de um médico que possa curá-lo.
A força técnica de Nejishiki reside na sua capacidade de simular a lógica onírica. Os painéis não se sucedem em uma sequência temporal lógica; eles se sobrepõem, saltam e se fundem, criando uma sensação de desorientação contínua. A paisagem é uma amálgama de elementos familiares e alienígenas: uma praia que se transforma em uma favela industrial, ruas labirínticas povoadas por figuras grotescas e fragmentos de infraestrutura decadente.
O simbolismo é denso e multifacetado. O próprio título, Nejishiki, que pode ser traduzido como “parafusado” ou “estilo parafuso”, refere-se à famosa cena em que um médico, incapaz de curar a ferida, insere um parafuso real na veia parafusada do braço do protagonista. Este ato, surreal e visceral, funciona como uma metáfora central para a alienação e a mercantilização do corpo humano. O parafuso é a intrusão do mecânico, do industrial, no íntimo e orgânico, um símbolo da fragmentação do ser na sociedade moderna. Os peixes, as pontes, a paisagem urbana decadente, tudo contribui para uma atmosfera de ansiedade e paralisia. Tsuge não oferece respostas; ele nos força a habitar o espaço do trauma e da confusão.
O Eu Fragmentado e o Existencialismo no Pós-Guerra
Ao analisar Nejishiki, é impossível dissociá-lo de seu contexto sociocultural. O Japão de 1968 estava em plena efervescência política e social, com protestos estudantis e uma rápida industrialização que trazia prosperidade, mas também profunda desigualdade e perda de identidade. A obra de Tsuge reflete essa angústia existencial de uma geração que se sentia desconectada do passado imperial e alienada pelo presente burocrático e urbano.
O protagonista de Nejishiki é a personificação dessa alienação. Ele está ferido, perdido, incapaz de se comunicar eficientemente e à mercê de forças burocráticas e absurdas. Sua busca por cura é uma metáfora para a busca por sentido em um mundo que parece tê-lo perdido. Minha reflexão é que o mangá de Tsuge captura a sensação de paralisia, a impossibilidade de ação em um sistema impessoal, um tema recorrente na literatura existencialista de autores como Franz Kafka ou Kōbō Abe. A paisagem de Nejishiki é uma manifestação externa da psique fragmentada do pós-guerra, um espaço onde a identidade é fluida e o trauma é persistente.
Nesse sentido, a obra é um exemplo primordial de como o mangá pode funcionar como um espelho psicológico da nação. Nejishiki não narra a história do Japão; ele narra o sentimento de ser japonês naquele momento histórico específico, um sentimento marcado por um sentimento de derrota, reconstrução forçada e a perda de um núcleo espiritual ou cultural autêntico. A veia parafusada é a ferida que nunca cicatriza, a lembrança constante da intrusão externa e da necessidade de “se adaptar” a um novo sistema, mesmo que isso signifique se tornar mecanizado ou fragmentado.
Do Underground ao Cânone: O Legado de Tsuge na Mídia Contemporânea
O impacto de Nejishiki e da obra de Yoshiharu Tsuge foi avassalador, não apenas no Japão, mas gradualmente ao redor do mundo. Embora a revista Garo tenha cessado sua publicação original, o espírito de vanguarda que ela fomentou persistiu. A obra de Tsuge abriu caminho para que o mangá fosse reconhecido não apenas como entretenimento massificado, mas como uma forma de arte capaz de profundidade filosófica e experimentalismo estético.
A influência de Tsuge reverbera em inúmeros autores contemporâneos que buscam explorar temas psicológicos complexos ou estéticas não-convencionais. Autores como Katsuhiro Otomo, cuja obra Akira compartilha a obsessão por paisagens urbanas detalhadas e a intrusão do mecânico no corpo, e Satoshi Kon, cujos filmes exploram a fusão entre sonho e realidade, são herdeiros diretos do terreno desbravado por Garo e Tsuge. Minha percepção é que até mesmo obras mais recentes, como Chainsaw Man de Tatsuki Fujimoto, com sua mistura de violência visceral, humor absurdo e profunda introspecção psicológica, dialogam, ainda que de forma indireta, com a tradição de obras que desafiam as expectativas do gênero e mergulham no desconforto.
O legado de Nejishiki reside na sua recusa em ser domesticado. Ele permanece uma obra difícil, densa e desafiadora, resistindo à fácil digestão comercial. No entanto, é precisamente essa resistência que o torna uma referência intelectual e cultural indispensável. Ao confrontar o parafuso na alma do protagonista de Tsuge, somos confrontados com os fragmentos da nossa própria psique, com as feridas que tentamos ocultar sob a polidez da vida moderna.
Conclusão Reflexiva
Concluindo, Nejishiki de Yoshiharu Tsuge não é um mangá para ser lido com a leviandade de quem consome entretenimento. Ele exige do leitor uma postura ativa, uma disposição para habitar o espaço do desconforto e da ambiguidade. Ao observar a evolução do mangá, fica claro que a obra de Tsuge é um ponto de inflexão, um momento em que a nona arte no Japão declarou sua maioridade intelectual e estética. Ela nos lembra que a verdadeira arte não busca apenas agradar ou explicar; ela busca confrontar, desestabilizar e, em última análise, aprofundar nossa compreensão da condição humana.
A veia parafusada permanece como uma imagem poderosa e persistente, um símbolo da fragmentação e da alienação que permeia a modernidade. Ao revisitar Nejishiki, não estamos apenas consumindo um clássico do mangá underground; estamos nos engajando em uma conversação filosófica sobre a identidade, o trauma e a busca por sentido em um mundo absurdo. O convite é para que o leitor não se detenha na superfície do traço sujo, mas mergulhe nas camadas simbólicas e psicológicas que fundamentam esta obra-prima, permitindo que o pesadelo de Tsuge ecoe e ressoe em sua própria mente, questionando as estruturas da realidade e do eu.





