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Ilustração de Rally Vincent de Gunsmith Cats encostada em seu Shelby Cobra azul nas ruas noturnas de Chicago.

Imagine o som ensurdecedor de um motor V8 rasgando o asfalto, o cheiro inconfundível de borracha queimada e o clique metálico perfeito de uma pistola sendo engatilhada. Tudo isso emoldurado pelas ruas sombrias e cheias de vida de uma Chicago desenhada à mão, com aquele capricho que apenas a era de ouro da animação japonesa poderia entregar. O nosso tema de hoje não é apenas um anime. É uma verdadeira carta de amor ao cinema de ação americano, traduzida pelas mãos de um dos maiores obcecados por mecânica e armas de fogo que o Japão já viu.

Quando decido revisitar Gunsmith Cats, uma nostalgia imediata e muito particular toma conta de mim. Éramos nós nos anos 90, garimpando fitas VHS em locadoras e descobrindo esse formato glorioso chamado OVA (Original Video Animation). Naquela época, nós não tínhamos a facilidade do streaming. Cada fita era um tesouro, e quando você colocava essa obra para rodar na sua TV de tubo, a qualidade da animação simplesmente saltava na sua cara. Era um tempo em que os estúdios japoneses tinham orçamentos robustos e muita liberdade criativa para focar no que realmente importava para os fãs de ação: adrenalina pura, carisma desenfreado e um preciosismo técnico que hoje em dia é quase impossível de se encontrar.

Minha percepção é que muitas obras envelhecem e perdem o seu brilho inicial, mas este clássico de 1995 segue intacto. Ele continua sendo uma aula de como fazer entretenimento adulto, vibrante e esteticamente perfeito. E para entender exatamente o porquê de essa animação ser tão reverenciada até hoje, nós precisamos abrir o capô dessa máquina e olhar bem de perto quem estava no banco do motorista.

A Mágica por Trás da Obra: O Preciosismo de Kenichi Sonoda

Para compreender a alma desse anime, você precisa primeiro entender a mente do seu criador. Kenichi Sonoda já era uma lenda nos bastidores do mercado japonês. Ele havia deixado a sua marca como designer de personagens em clássicos absolutos como Bubblegum Crisis e Gall Force. Mas foi com o mangá de Gunsmith Cats (iniciado em 1990) que ele encontrou o veículo perfeito para despejar todas as suas maiores obsessões. Sonoda não é apenas um ilustrador talentoso. Ele é um fanático assumido por carros esportivos, armamento pesado e cultura pop ocidental.

A protagonista da nossa história, Irene “Rally” Vincent, é o reflexo direto dessa paixão. Rally é uma caçadora de recompensas e dona de uma loja de armas em Chicago. Ela não tem poderes mágicos, não pilota robôs gigantes e não é a típica heroína frágil que precisa de resgate. Ela é uma profissional altamente treinada, dona de uma pontaria letal e de uma lealdade inabalável aos seus princípios. E o mais fascinante é notar como Sonoda fez questão de equipá-la com o que há de melhor no mundo real. A arma de assinatura de Rally é uma CZ-75 First Model, uma pistola tcheca famosa por sua precisão e design ergonômico.

No anime, a forma como essa arma é desenhada, o som da cápsula ejetando e o coice no braço da personagem são reproduzidos com uma exatidão técnica que beira o documentário. Notei que os animadores faziam questão de mostrar o funcionamento interno, o travamento do ferrolho e até a maneira correta de se empunhar a arma. Para os entusiastas, isso é um deleite visual raro.

E não podemos falar de Rally Vincent sem mencionar a sua parceira, Minnie May Hopkins. Se Rally é a pragmática e fria precisão tcheca, Minnie May é o caos puro encapsulado no arquétipo de uma garota aparentemente inofensiva. Especialista em explosivos de todos os tipos (de granadas de fumaça a bombas caseiras altamente destrutivas), ela traz o alívio cômico e a dinâmica clássica dos filmes policiais no estilo Buddy Cop. Elas formam uma dupla aos moldes de Máquina Mortífera, operando no limite da lei para capturar criminosos que a polícia de Chicago não consegue alcançar.

Contexto e Bastidores: Uma Viagem Real a Chicago

Uma das grandes curiosidades que separam essa produção de outras da mesma época é o nível de imersão que a equipe buscou. O estúdio responsável pela adaptação em três episódios foi o OLM (Oriental Light and Magic). Talvez esse nome não soe estranho para você, pois anos depois eles se tornariam mundialmente famosos por animar a franquia Pokémon. Mas em 1995, o OLM estava focado em tiroteios, perseguições em alta velocidade e corrupção política.

Para garantir que a atmosfera de Chicago fosse o mais autêntica possível, a equipe de produção não se contentou em olhar fotos em revistas. Eles viajaram para os Estados Unidos (algo consideravelmente caro e raro para uma produção de OVA naquela década) e mapearam as ruas, os becos e a arquitetura da cidade. Eles queriam que o espectador sentisse o vento frio passando pelos arranha-céus e a sujeira das ruas onde o submundo operava.

Mas o detalhe de bastidores que eu acho mais impressionante envolve o design de som. A equipe japonesa visitou estandes de tiro americanos apenas para gravar o som real de diferentes calibres. Eles queriam ter certeza de que o espectador conseguiria diferenciar o estampido de uma bala 9mm do estrondo de uma Magnum .44 de olhos fechados. Esse preciosismo acústico se uniu a uma trilha sonora espetacular, composta por Peter Erskine, um baterista americano de jazz. A trilha mistura jazz, funk e rock, criando uma roupagem sonora que grita anos 90 e embala as cenas de ação com um ritmo frenético e sofisticado.

O Peso do Metal e a Arte do Sakuga Automotivo

Sempre me impressionou a forma como a indústria lidava com cenas envolvendo veículos antes da popularização do CGI (computação gráfica). Hoje em dia, até nos animes de altíssimo orçamento, os carros costumam ser modelos 3D que muitas vezes parecem flutuar no asfalto, quebrando um pouco a imersão. Em Gunsmith Cats, cada veículo foi animado em celuloide, desenhado quadro a quadro pelos animadores.

O grande xodó da série é, sem dúvida, o carro de Rally: um Shelby Cobra GT500 de 1967. Nas perseguições pelas ruas de Chicago, você consegue sentir o peso do carro. Quando Rally faz uma curva em alta velocidade, a animação mostra a suspensão trabalhando, os pneus deformando ligeiramente contra o asfalto e a carroceria inclinando com a força da física. Esse nível de animação fluida e detalhada é o que chamamos de sakuga (momentos onde a qualidade da animação se eleva exponencialmente para entregar um espetáculo visual).

A perseguição no segundo episódio da série é uma das sequências automotivas mais bem coreografadas da história da animação japonesa, rivalizando facilmente com filmes de Hollywood de grande orçamento. É uma verdadeira homenagem à cultura gearhead, feita por artistas que claramente sabiam como um motor V8 deveria se comportar nas telas.

O Impacto (Ontem e Hoje): O Legado das Mulheres de Ação

Analisando o cenário moderno da cultura pop japonesa, é muito fácil traçar a árvore genealógica de certas obras. Se você é fã de Black Lagoon, por exemplo, é impossível não notar a enorme dívida que a personagem Revy tem com Rally Vincent. O autor de Black Lagoon, Rei Hiroe, bebeu diretamente dessa fonte ao criar sua protagonista fumante, letal e dona de armas duplas. A diferença é que, enquanto as obras modernas tendem a ser muito mais cínicas e niilistas, Gunsmith Cats ainda carrega aquele heroísmo clássico dos anos 80 e 90. Rally tem um código de ética moral muito forte, mesmo trabalhando em um mundo afundado na corrupção.

Esse OVA de três episódios conseguiu condensar o melhor do mangá de Kenichi Sonoda sem perder a essência. Eles focaram na antagonista Natasha Radinov (uma ex-assassina russa aterrorizante) e no agente da ATF Bill Collins, criando uma trama coesa sobre tráfico de armas e política que não deixa o ritmo cair em momento nenhum.

É incrível notar como a obra envelheceu bem. O roteiro não depende de reviravoltas mirabolantes ou exposições cansativas. A história avança através da ação, das expressões dos personagens e da fumaça dos canos das armas. É um entretenimento direto ao ponto, com um timing cômico excelente e cenas de tensão genuínas. Para o leitor que cresceu assistindo aos filmes do Bruce Willis ou do Arnold Schwarzenegger na Sessão da Tarde, esse anime é a tradução literal daquele sentimento de pura diversão descompromissada, mas executada com uma maestria artística invejável.

O Veredito de uma Era de Ouro

Ao final desses três episódios, a única frustração que fica é o desejo de que houvesse muito mais material animado. O mangá continuou por anos (e até ganhou uma sequência chamada Gunsmith Cats Burst), mas a animação parou por ali, cristalizando-se como uma cápsula do tempo perfeita de como a indústria de animes operava em seu auge técnico analógico.

Gunsmith Cats é muito mais do que garotas bonitas atirando. É uma obra que respeita profundamente as suas inspirações ocidentais, embala tudo em um design de personagens icônico e entrega uma das melhores direções de ação da década de 90. É o tipo de anime que faz você querer comprar uma jaqueta de couro, ouvir jazz em um bar enfumaçado e apreciar a estética impecável dos carros clássicos.

Se você gosta de mergulhar nesse estilo mais cru e focado no submundo, minha maior recomendação é que você corra atrás não apenas do mangá original, mas também de obras co-irmãs dessa época. Riding Bean (o protótipo criado pelo próprio Sonoda) é uma parada obrigatória, assim como os OVAs de You’re Under Arrest para quem gosta de perseguições policiais com aquele traço charmoso dos anos 90, ou até mesmo o clássico imortal Cowboy Bebop, que compartilha muito dessa mesma atmosfera de caçadores de recompensa lidando com o peso da vida adulta. O importante é manter vivo o apreço por essa arte feita à mão, onde cada traço no celuloide transbordava paixão e dedicação.

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